ANGOLA E O SONHO! ... profecoopblog.blogs.sapo.pt
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    PARAFRASEANDO ALGUÉM QUE FOI MEU GRANDE AMIGO, O PROFESSOR FERNANDES DUARTE, ANGOLANO POR ADOPÇÃO E QUE A GUERRA ACABOU POR LEVAR, " SE HÁ MONTANHAS QUE CAEM HÁ IDEIAS QUE FICAM". ÁFRICA E EM ESPECIAL ANGOLA FICOU PARA SEMPRE NO CORAÇÃO DE QUASE TODOS OS PROFESSORES EX-COOPERANTES, PELO QUE ESTE BLOG SE DESTINA A TODOS OS PROFESSORES QUE, DE GENUINA VONTADE NA DÉCADA DE 80, EMBARCARAM NA "AVENTURA" DA COOPERAÇÃO EM ANGOLA ; DIRIGIMO-NOS, ASSIM, A TODOS OS QUE NUNCA ESQUECERAM A EXPERIÊNCIA HUMANA ADQUIRIDA E A TODOS OS QUE DESDE SEMPRE SONHARAM ANGOLA COMO PÁTRIA LIVRE. NÃO DEVEMOS VIRAR COSTAS A UMA PARTE DE NÓS MESMOS, QUANDO O QUE VIVEMOS TEVE UMA INFLUÊNCIA POSITIVA EM TODOS NÓS. JOSÉ CARLOS PACHECO ALVES (Professor ex- cooperante na cidade do planato central, Huambo 198O - 1983)

abril 22, 2006



CARTA DO DESILUDIDO

Porra!
Não vou trabalhar mais
Já disse: não vou trabalhar mais

Ouviram?

Não façam orelhas moucas
Estou cansado, farto de fazer de conta
Não quero continuar a ter este papel
E que não passa de manga- de-alpaca
Por isso...
Não me obriguem a trabalhar mais

Ouviram ou não?

Deixei-me ...

Deixei-me ser sem mesuras
Porque não sou
Não quero ser mais um qualquer funcionário
Não sofro de apatia e muito menos de abulia


Porra!
Então não é verdade?
O País não está demasiado fragilizado,
Funcionalizado,
Menos responsabilizado?


Senhor Presidente da República,
Senhor Primeiro Ministro,
Senhores Ministros
,
Pavonear não é resolver problemas
É apenas aparentar

Libertem o país de todas as amarras
Exijam, exerçam a autoridade
Não coloquem a qualificação na prateleira
Corram com os Jobs for the Boys,
Com a mediocridade, as imitações,
Não venham com as litúrgicas fatalidades
Nem com o alibi do destino
Não venham com discurso das ciclópicas tarefas
E muito menos com o das prioridades

Excelências,

Não culpem o rio, nem a corrente da água
A violência
A violência está nas margens da vossa incompetência
E nas duas margens partidas do rio,
Há muito quebradas,
Está o retrato de Portugal


pacheco alves, Setúbal, 10 de Março de 2001)



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dezembro 21, 2005


NATAL




É preciso, é necessário, urge! ...
Que se renasça, se cresça
E que, enfim, o sonho continue a alimentar a vida...

E que Natal é hoje , a toda a hora,
Todos os dias devem ser de Natal,
E como tal, importante não é apenas estar,
É também ser! Sermos!...

É preciso, é necessário relançar o amor,
Fútil, é continuar a olhar para as pequenas coisas,
Só as grandes causas nos fazem renascer e crescer...

Urge, assim, que continuemos a sonhar,
Importante é mesmo amar,
Não há alternativa!...
Por aqui passa muito do segredo da vida!

NATAL, SEMPRE !...


pacheco alves ( Setúbal, 22 de Dezembro de 2000)




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novembro 22, 2005


CANTAR


CANTAR ! CANTAR! CANTAR!

CANTAR

Cantar a marcha no caminho largo,
O passo dos homens que desfilam
E continuar a sonhar, cantando a esperança,
O primeiro de todos os dias não demorará a chegar

CANTAR
Cantar Lumuba, Che Guevara,
Amílcar Cabral e Agostinho Neto
Cantar com o coração sempre e sem vacilar
O sonho sonhado da autêntica libertação


CANTAR
Um cântico novo
Que ninguém mais saiba cantar
Um hino que fale da coragem e da resistência
Os feitos heróicos dum povo não são para se olvidar

E CANTAR SEMPRE
A pura amizade
Porque nesta terra de sofrimento
Não há que recear a fraternidade
Mais cedo ou mais tarde, chegará
A hora do livramento que à liberdade conduzirá


E CANTAR
Cantar um dia a Pátria Angolana
Porque vejo já ao perto o horizonte
Do passado e do futuro como aurora que desponta
Num povo prenhe de sofrimento mas já maduro

E SEMPRE BEM ALTO CANTAR !

pacheco alves ( Huambo - 1983)



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setembro 08, 2005


FICOU O SONHO, A AMIZADE E A CAMARADAGEM



O nosso país, a nossa pátria, por vezes não tem memória. Vinte e cinco anos depois já não se lembra dos jovens que, na década de 80 foram contratados ao abrigo dos acordos de cooperação, e que a troco de quase nada, depois do regresso à pátria de milhares de portugueses, foram superar a falta de professores nas escolas dos países africanos que por nós tinham sido colonizados. O país esqueceu-se, como normalmente acontece, do sonho sonhado desses jovens, que embrenhados uns na revolução dos cravos, imbuídos outros pelo espírito de dádiva, enfim solidários e sonhadores, pensavam ser possível, depois do retorno de muitos portugueses, ajudar a construir uma África mais fraterna e mais justa.
Tal como fomos injustos para com a maioria dos portugueses que, em Angola, Moçambique, Guiné, S. Tomé e Príncipe e Timor dignificaram a pátria, trabalhando em prol do progresso destas terras, e que depois se viram na imposição de regressar à pátria por evidente autismo Salazarista e ainda por falta de uma descolonização exemplar, esquecidos foram também esse punhado de jovens professores, que enviados para as mais distantes províncias de Angola, em condições dificílimas de sobrevivência, foram também obrigados a regressar anos depois, trucidados pelas sempre crescentes dificuldades, algumas impostas pela guerra e que só recentemente terminou, sendo ainda outras impostas pelo aparelho político dominante, de cariz totalitário.
De regresso à pátria, animados por laços de pura amizade e pelos ideais que os levaram um dia a partir para a África, os ex-cooperantes de Angola têm mantido nos últimos anos animados encontros que se têm realizado em diferentes pontos do país.
Apesar das agruras por que todos passamos, pois não podemos esquecer que o ambiente em Angola era, de Cabinda ao Cunene, de guerra mais ou menos generalizada, não encontramos por parte de quem quer que seja, qualquer sinal, qualquer gesto de arrependimento. Antes pelo contrário, as manifestações sentidas e muitas vezes contidas são sempre de imensa saudade, e não fora a guerra que perdurou até há bem pouco tempo, grande parte desses jovens ter-se-iam integrado em plenitude na sociedade angolana. Não temos dúvidas, hoje, e por isso afirmamos, que a terra que íamos ajudar a “reconstruir” acabou ela por exercer uma influência tal sobre nós, um fascínio ou magia, que acabou por nos transformar. Parafraseando o meu amigo, Fernandes Duarte, angolano por adopção e que a guerra levou, " Se há montanhas que caem há ideias que ficam". E foi esta terra, ainda hoje por mim recordada, e continuamente sentida, terra prenhe de sofrimento, que estará para sempre ligada ao que me é mais profundo.
Não posso por isso nunca esquecer aquilo que um dia dois dos meus alunos, nos anos idos de 1981, perante as dificuldades da vida em Angola, ainda que utopicamente, escreveram num trabalho, que religiosamente guardo:
“ Aquilo que eu queria que a vida fosse, seria um exagero se por acaso pudesse tornar esse sonho realidade. Eu desejaria cheirar também as rosas, apreciá-las. Gostaria que o indispensável estivesse ao alcance de todos ... Que a liberdade de expressão reinasse em todos os povos. Que a liberdade fosse aquilo que por vezes sonhamos.
Que todas as pessoas tivessem uma vida feliz. Que todos nós cantássemos. Que a fome não espreitasse, seria sonho meu. Que a luz iluminasse todos da mesma forma. Que o desenvolvimento e o progresso fosse igual para todos. Que a escolarização fosse realidade ... A injustiça deveria morrer.
Queria que a vida tivesse sabor, que transmitisse frescura, principalmente a todos os que rigorosamente trabalham na edificação desta grei. Que a fome acabasse, que as crianças não sofressem na carne a desnutrição. Os homens de Angola deviam acabar com os massacres, com as prisões e as guerras. Todos deviam ter o direito de respirar a liberdade. (...)
Mas a vida é feita pelos homens e para os homens ... apetecendo-me mesmo, por vezes, escrever o nome dalguns com letra minúscula. (...)”
E como outro dizia:
“Eu gostaria que Angola, a nossa Mãe pátria, fosse um país onde todos lutassem por uma vida melhor.
Penso Angola como exemplo de unidade entre os homens cultos, conscientes do seu dever para com o povo, para com a humanidade. Que fosse um país norteado pelo desenvolvimento de todos e onde fosse possível que todas as crianças pudessem aprender a ler . Pelo que nos é dado ver, viver é hoje muito difícil no mundo e em particular em Angola. A humanidade deveria ser muito mais solidaria com todos os povos. Os homens deveriam deixar de se envolver em conflitos e fazer com que a solução destes fosse antes um factor de união.
Os povos que habitam o planeta e o povo angolano, que convive com uma guerra há vários anos, têm direito de viver em paz e segurança. Cada povo, cada nação deve construir o sistema de governação que considere mais adequado sempre tendo em atenção a vida e a liberdade de todos, porque só assim é possível ter melhor desenvolvimento e mais justiça."
Foi esta vontade de justiça e de liberdade da parte dos meus alunos que me marcou profundamente na vida. Marcaram-me os amigos que deixei e nunca mais verei. Ficou para sempre a profunda saudade do Fernandes Duarte, o professor, meu colega no Instituto Médio Agrário Comandante Hoji Ya Henda e ainda no Instituto Industrial Pedagógico Ho-Chi-Minh, que deve ter morrido em 1992 sob os escombros da sua casa, em mais uma guerra estúpida, como são sempre todas as guerras, que deixou Huambo, cidade do planalto central, e que já anteriormente tinha sido metralhada por várias vezes, agora completamente transformada numa cidade fantasmagórica, pelas imagens que nos foram dadas ver pelos meios televisivos.
África e em particular Angola, apesar de tudo, apesar da guerra que vi e também vivi, valeu e valerá que seja feito sempre mais um esforço, agora no sentido duma verdadeira e autêntica paz, porque só neste caminho será possível a reconstrução e o consequente desenvolvimento social e económico desta TERRA . É pena que o o tal sonho sonhado não possa desde já ser por todos vivido, e que mesmo em tempo de paz, esse sonho continue inalcansável para a maioria dos angolanos. Não por falta de vontade dos que nela sobrevivem , mas por causa dos interesses egoístas que não deixam que o povo angolano alcance a verdadeira paz.
Não devemos esquecer a experiência adquirida e tudo o que ficou para trás, quando o que se passou teve influência positiva em todos nós. Por isso e só por isso, e em homenagem a todos aqueles que ficaram e que talvez nunca mais veremos, aos nossos alunos, a semente mais valiosa que deixamos, a todos os “ camaradas” ex-cooperantes presto aqui a minha mais sentida homenagem.
Ficou o sonho , a amizade e a camaradagem de todos.
Tenho dito. Obrigado

Setúbal, 3 de Setembro de 2005

José Carlos Pacheco Alves



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agosto 28, 2005


ANGOLA


Quantas? Quantas vezes,
Fervilha em mim a tua imagem?
E é sempre pela calada da noite
Que eu te vivo,
Que sinto o teu pulsar,
Angola!...

Quantas?
Quantas noites mal dormidas?...
Fustigado por imagens
De destruição e de dor
Pela angustia infinda
Dum povo que sofre
Sem lamentos
E desesperadamente vive
Mas que continua e espera!...

Nunca, nunca será demais,
Angola,
Lembrar os teus anónimos heróis,
O teu povo, os teus homens,
As tuas mulheres e as crianças
Que continuam a morrer,
Os estropiados, e mesmo
Os que desiludidos desistiram ...


Nunca, nunca será demais
Angola,
Lembrar também os teus vivos,
Os que corajosamente ainda resistem,
E lutam...
E que defendem a liberdade
Nas paredes esventradas das casas
Onde escrevem o que sentem
Mantendo assim acesa a chama
Da grande “Esperança”

E Amanhã, Amanhã ...
Quando a Esperança voltar
E não houver mais aves de rapina
Abutres a voar
Voltarei
Voltarei a ver a felicidade do teu povo.
Nos campos desminados
Voltarão a colher goiabas e mangas
E os milharais voltaram a reverdecer,
Voltarei a ver o sorriso das tuas crianças
Que nas ruas das tuas cidades, de novo brincarão

E no chão regado pelo sangue
Dos que heroicamente tombaram
Florirão rosas vermelhas e brancas
Como as que minha mãe cuidadosamente cultiva

Na terra nua, na terra crua
Crescerão novas acácias rubras
O gado voltará a saciar-se
Porque com a chuva
O capim reverdecerá mais forte
A terra será novamente fértil
Haverá mangas e pitangas, loengos,
Maboques, nonchas e matambotes para todos

Serás, então ... livre, ANGOLA!


Pacheco alves ( Novembro de 1999)



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CARTA A UM AMIGO


CARTA A UM AMIGO

Onde moras hoje, AMIGO?

O tempo passa,
Em vão ... espero notícias tuas,
De Angola, da tua adoptiva Pátria,
Da NOSSA querida Huambo
Que tanto admirávamos
E amávamos !

Onde moras hoje, AMIGO?

De Angola, como de toda a África,
A televisão e os jornais trazem notícias tristes
O fogo cruzado da artilharia pesada,
O estoiro dos morteiros, das bazucas e os migues
Arrasaram mais uma vez campos e cidades


Huambo, Kuito, muitas vilas e aldeias
Permanecem hoje em ruínas
A paisagem está completamente destruída
Resta a desolação e a dor dos que lutando
Corajosamente ainda se mantêm de pé
E dos que resignados, impávidos
Assistem a mais esta aniquilação

Afinal, onde moras AMIGO?

Morreste? Finaste?
E onde estás sepultado?
No quintal da tua casa desmoronada
Onde cuidadosamente cultivávamos legumes,
Verdejavam as couves, as alfaces e os feijoeiros ?
E onde pela tardinha, em amena cavaqueira,
Filosofávamos sobre o feiticismo, a mística
Dessa prodigiosa terra?

Pergunto ao vento
Grito bem alto, bem alto,
Para que os verdadeiros responsáveis ouçam:
Afinal onde moras AMIGO?
Onde estáaaaaaaaaaas?


pacheco alves ( Setúbal,1993)





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